Domingo. Tarde ensolarada.
Marido vendo futebol na sala. Times desconhecidos. Ana Maria duvidava que César, seu marido, consiguisse pronunciar o nome de cinco jogadores sem gaguejar. A pilha de louças da cozinha está chegando ao fim. Ana Maria ainda sentia a ardência de um pequeno corte feito na hora de cortar as cebolas.
Tudo o que ela queria fazer era sentar no sofá e relaxar...
Relaxar? Quem falou em relaxar?
"Mulher, pegue uma cerveja!"
"Faça mais pipoca!"
"Esvazie meu cinzeiro"
E ela fazia, sem reclamar ou hesitar. No seu íntimo havia um pontinho que ia subindo e subindo rumo ao limite da paciência. Há 13 anos esse pontinho vinha subindo sem parar e finalmente ele havia chegado à zona de perigo máximo. Se o ponto fosse uma abelha, poderia dizer que ela estava rumando às hélices que cortariam suas asas e ela cairia em um enorme abismo, encontrando seu fim.
Ana Maria finalmente consegue se sentar, não queria ver futebol, queria ver pelo menos o Faustão.
Nos primeiros cinco minutos fez cara de enfado, mas o companheiro só se interessou por pedir que coce suas costas. Hesitou, mas fez. Finalmente tomou coragem e pediu para o companheiro trocar o canal da televisão, o fez com medo, como se tivesse pedido que ele saltasse pela janela.
Aí a paz acaba. Aí as vozes mansas se tornam gritos.
"Ô mulher, cê acha que pode ficar me dando ordens? Pode me obrigar a assistir qualquer porcaria e perder meu futebol? Cê pensa que é quem?"
E Ana Maria sabia quem ela tinha sido, alguém que sempre ficou por baixo, vendo a ascensão do marido que no começo foi divertida. Depois ele passou a ficar distante e agora ele estava num ponto tão alto como a distância de um deus. Era assim que ele se sentia, era assim que ela deixava que ele se sentisse.
"Não mais", foram as palavras que passaram na sua cabeça. Nesse momento ela se levantou, disse coisas que estavam entaladas por muito tempo, cansou de sua posição escrava. Falou, gritou, chorou, desabafou. A escravidão já estava há tempo abolida, ela podia fazer o que bem quisesse, mas o medo a tornou refém por muito tempo. Foi preciso juntar ano a ano coragem e respeito por si mesma, mas ela conseguiu. Ana Maria agora é uma mulher livre.
Foi aí que as asas de César foram cortadas. Foi aí que César caiu em um abismo tão profundo quanto Ícaro no mar Egeu.
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O texto faz alusão à lenda de Ícaro, filho de Dédalo, que usava asas de cera para fugir do labirinto. Inebriado com a sensação de poder, Ícaro sobe demais fazendo com que o Sol derreta suas asas e ele caia no mar Egeu.
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